terça-feira, 11 de maio de 2010

Jesus- in Bichos por Miguel Torga

Comiam todos o caldo, recolhidos e calados, quando o menino disse:
-Sei um ninho!
A Mãe levantou para ele os olhos negros, a interrogar. O Pai, esse, perdido nos alheamento costumado, nem ouviu. Mas o pequeno, ou para responder à Mãe, ou para acordar o Pai, repetiu:
-Sei um ninho!
O velho ergueu finalmente as pálpebras pesadas, e ficou atento, também.
A criança, então, um tudo-nada excitada, contou. Contou que à tarde, na altura em que regressava a casa com a ovelha, vira sair um pintassilgo de dentro dum grande cedro. E tanto olhara, tanto afiara os olhos para a espessura da rama, que descobrira o manhuço negro, lá no alto, numa galha.
A Mãe bebias as palavras do filho, a beijá-lo todo com a luz da alma. O Pai regressou ao caldo.
Mas o menino continuou. Disse que então prendera a cordeira a uma giesta e trepara pela árvore acima.
De novo o Pai levantou as pálpebras cansadas, e ficou tal e qual a Mãe, inquieto, com a respiração suspensa, a ouvir.
E o pequeno ia subindo. O cedro era enorme, muito grosso e muito alto. E o corpito, colado a ele, trepava devagar, metade de cada vez. Firmava primeiro os braços; e só então as pernas avançavam até onde podiam. Aí paravam, fincadas na casca rija.
A subida levou tempo. Foi preciso descansar três vezes pelo caminho, nos tocos duros dos ramos. Por fim, o resto teve de ser a pulso, porque eram já só vergônteas as pernadas da ponta.
Transidos, nem o Pai nem a Mãe diziam nada. Deixavam, apavorados, mudos, que o pequeno chegasse ao cimo, à crista, e pusesse os olhos inocentes no ovo pintado. O ninho tinha só um ovo.
Aqui, o menino fez parar o coração dos pais. Inteiramente esquecido da altura a que estava, procedera como se viver ali, perto do céu, fosse viver na terra, sem precisão dos braços cautelosos agarrados a nada. E ambos viram num relance o pequeno rolar, cair do alto, da ponta do cedro, no chão duro e mortal de Nazaré.
Mas a criança, apesar de mostrar, sem querer, de que todo se alheara do abismo sobre que pairava, não caiu. Acontecera outra coisa. Depois de pegar no ovo, de contente, dera-lhe um beijo. E, ao simples calor da sua boca, a casca estalara ao meio e nascera lá de dentro um pintassilgo depenadinho.
E o menino contava esta maravilha com a sua inocência costumada, como quando repetia a história de José do Egipto, que ouvira ler a um vizinho.
Por fim, pôs amorosamente o passarinho entre a penugem da cama, e desceu. E agora, um nada comprometido, mas cheio de felicidade, sabia um ninho.
A ceia acabou num silêncio carregado. Só depois, à volta do lume quento do cepo de oliveira em brasido, é que os pais disseram um ao outro algumas palavras enigmáticas, que o pequeno não entendeu. Mas para quê entender palavras assim? Queria era guardar dentro de si a imagem daquele passarinho depenado e pequenino. Isso, e ao mesmo tempo olhar cheio de deslumbramento os dedos da Mãe, que, alvos de neve, fiavam linho.
E tanto se encheu da imagem do pintassilgo, tanto olhou a roca, o fuso, e aqueles dedos destros e maravilhosos, que daí a pouco deixou cair a cabeça tonta de sono no regaço virgem da Mãe.

Quixote - Ópera Bufa em cena no Teatro da Trindade

"Mesmo quando os cabelos ficam brancos, a cabeça ainda brilha, ainda luta, ainda sonha. Mesmo quando o corpo envelhece, a mente ainda dança, ainda canta, ainda conquista."

Destas conquistas da alma fala a peça Quixote, em cena no Teatro da Trindade até 13 de Junho, pela criação do Teatro O Bando, com composição musical de Jorge Salgueiro e encenação do grande João Brites, partindo do texto Vida do Grande D. Quixote de La Mancha e do Gordo Sancho Pança de António José daSilva, O Judeu.

Com carácter cómico, mas tratando de um tema tão sensível como o envelhecer, apresenta-se um excelente espectáculo em que cadeiras-de-rodas e andarilhos vibram como barcos e aviões, descem até ao Inferno e ascendem até Apolo! Numa versão feminina de um conto para todos familiar, permite-nos rir enquanto pensamos na idade a que todos desejamos chegar, mas que todos esperamos que ainda demore...

"Loucura? Loucura seria adormecer..."

E pela descrição feita...obviamente que adorei! (Qualquer semelhança com o meu dia-a-dia profissional sui generis...enfim...)


sexta-feira, 26 de março de 2010

Humor de chuva

Já há alguns dias que o meu humor anunciava chuva...Tempos de cansaço, desilusão e ironia divina...
Enfiada no carro aguardo que o trânsito se digne a acordar. Gotas gordas e preguiçosas caem no vidro... Num carro idoso, vermelho-vinho que já sentiu anos de sol, vejo um dedo infantil através do vidro do banco traseiro virado para a minha faixa.
Brinca com o vapor que embaciou o vidro, desliza um traço que desenha a perna de um M. Em espelho, vejo letra após letra a surgir em tons de brincadeira. Vem um A, um R, um I... Será um menino Mário ou uma menina Maria? Mais um A e a dúvida evapora-se!
Uns cabelos de feno em tigela surgem a emoldurar um rosto que novamente embacia o quadro...
E sorri!

quarta-feira, 24 de março de 2010

Chamaste?

Senti o teu toque nas minhas costas...
Leve, com um dedo apenas!
Um chamamento, um pedido de atenção.
Virei-me a sorrir!
Ali estavas em existência real...
Ali me olhavas com os teus olhos polidos.
Todo o meu corpo virou espera,
Toda eu exclamava questão!
Que anseio por te saber a saber de mim!
Quantas fantasias criei!
Histórias e músicas e futuros!
Um café! Um jantar! Uma fuga a dois pelo mundo fora!
Lia símbolos e sinais escondidos nos teus gestos:
A palma da mão virada para mim?
- Vontade do toque no meu corpo!
A inclinação do teu rosto?
- Receio de ser demasiada a tua ousadia!
Entreabriste os lábios:
-"Tens a etiqueta da camisola de fora."
-"Ug?! Ah! Obrigada."
Rodaste os pés e foste embora.
Corei!

domingo, 14 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Obras no canil/gatil venceu votação do Orçamento Participativo da Câmara de Lisboa

Hoje é dia de alegria, de esperança por um Portugal maior!!!
Depois de uns percalços, a proposta para obras no canil/gatil Municipal de Lisboa, em Monsanto, ganhou como proposta mais votada pelos cidadãos no Orçamento Participativo da Câmara de Lisboa.
Mas o que significa isto, afinal? Porquê este exultar de felicidade por parte de quem votou? A resposta só é realmente entendida por quem já lá foi... e a experiência é de tal modo significativa que, pelo menos no meu caso particular, lançou-me para um novo mundo de "activismo" (palavra perigosa!) para o qual estava apenas levemente sensibilizada.
Não querendo correr o risco de apanhar com um processo por difamação (não era a primeira!), posso dizer que foi o pior e mais chocante sitio onde entrei na minha vida... E quem me conhece sabe que não sou de fácil choque...
Dirigi-me lá na ideia de adoptar o meu segundo gato, sem qualquer ideia pré-concebida sobre o local (quão a leste estava do encontrei!). A entrada não foi facilitada, pelo contrário, desconfianças e falta de vontade em dar um lar a um gatinho! Depois de alguns dedos de parlapi lá conseguimos entrar... E ao que assistimos!!! Uma sala às escuras (o "senhor" - funcionário público pago com os nossos impostos- lá acendeu as luzes) com jaulas pequenas repletas de gatos! Mortos com vivos, doentes com menos doentes. Até um cão bebé estava numa delas, deitado sobre o próprio vómito (infelizmente penso que não deve ter sobrevivido naquele estado). O "senhor" ainda deu uns pontapés em várias jaulas para ver "se estão todos vivos ou não". Quando fiz notar que havia gatos soltos encima dos tubos de ventilação, e questionando o "senhor" de como teriam acesso a comida e água, repetiu-me diversas vezes que não estavam lá gatos nenhuns (seriam parentes do gato de Cheshire, da Alice no País das Maravilhas?!). Depois da minha insistência e de finalmente concordar que "ah sim, 'tá ali um", não me respondeu como as suas necessidades eram providenciadas...
Havia diversos gatos bebés, que na altura era o que eu procurava, mas tinham de estar de quarentena oito dias, e blábláblá... Quando a vontade é miníma...
Quanto aos cães, pouco vi! O corredor foi atravessado a passo de corrida, pois não é simpático ver cães presos pelo pescoço à parede por uma corrente o dia todo!!!

Assim, e embora a proposta esteja a anos luz do que DEVERIA ser feito, é uma pequena esperança para quem lá vive (mal) e, na maioria dos casos, morre. Fica a notificação de que há quem esteja atento, e de que esses alguéns também votam...

"The greatness of a nation and its moral progress can be judge by the way its animals are treated." - Mahatma Gandhi

Um passo para que Portugal seja MAIOR!

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Uma ânsia pela luz

Caminho apressadamente sem lua nem lanterna...
Busco a luz cada vez mais ilusória.
Corro em diferentes direcções
Em busca de portas ou janelas.
Já não sei de onde vim,
Só uma memória já criada do caminho.
Toco, sinto, oiço...
Uma ânsia crescente da solução que tarda.
Mil figuras surdas e cegas
Ou serão os meus sentidos toscos?
Esperar que o sol nasça já não é solução:
Preciso, quero, é urgente!
O sangue corre em disparos de adrenalina...
Desespero e esperança...
Que estranha combinação!